terça-feira, 10 de março de 2009

sábado, 15 de novembro de 2008

Somente um corpo


Cheguei até a praia sem a intenção deliberada de ali estar, mas simplesmente fui, sem muito pensar, apenas queria. Era o bastante. O desejo de estar ali. Sendo assim, para lá me dirigi e, ao chegar, deitei-me ao solo e afundei sorrateiramente as mãos na areia quente do dia claro até sentir a textura dela. As texturas do dia e da areia, que se misturavam solícitas à minha necessidade de senti-las, pura e simplesmente. O sol estava inclemente, e ao meu redor vivia-se, pessoas com suas cadeiras de praia conversavam, jogavam, bebericavam algo que não me era oferecido. E eu também não me oferecia ao meu semelhante. Só o meu mutismo e um corpo, nada mais do que isso. Um corpo, apenas, sem grande expressão naquela grande massa humana que ocupava aquele pequeno espaço.

Confortavelmente procurava não pensar nas razões que me faziam estar daquela forma inapropriada, totalmente vestido, em um lugar onde geralmente o contexto comporta parcelas de impudicícia. E de qualquer maneira estando ali eu o era, inegavelmente. Viver também é se oferecer ao próximo da maneira mais desvairada, mas eu nem sabia o que é que afinal procurava, mas nem sempre há a necessidade de questionar-se, apenas ali estava colocado no mundo e assim o era. Ponto final. Mas os pontos finais nem sempre se colocam no lugar certo, pois as histórias continuam. E às vezes são histórias infindas, que atravessam minutos, horas, dias, meses e quem sabe anos. O ser humano não me pertence, definitivamente, para que eu o possa mutilá-lo simplesmente, ao meu bel prazer. E há vida mesmo antes das histórias, se é que se sabe quando elas se iniciam. Mas elas hão de ter um ponto de partida, que é me desconhecido, como quase tudo na minha vida.

E eu não estava ali para pensar sob o que quer que fosse, eu apenas queria observar as ondas, a areia, os prédios ao fundo, os carros e ônibus passando ao fundo e principalmente as pessoas que são o grande leit motiv de tudo aquilo na qual procurava ansiosamente me inserir. Bela paisagem inspiradora aquila, digna de algumas palavras de admiração, prazer, despeito ou quem sabe desvirtuação. E havia um corpo dentro desse corpo deitado. Um corpo ansioso por viver além daquela massa na qual estava confinada. Um corpo que desejava desesperadamente existir, não apenas ser. Porque ele sabia que se continuasse mantido ali dentro visualizaria o ser humano e todas as suas coisas de forma tosca, pobre, aviltada. Como se o verdadeiro existir estivesse muito além do que lhe era fornecido. E tinha razão. O pouco que lhe era dado era imensamente fugaz perto do que o de fora lhe podia proporcionar. Teria tanta coisa a experimentar ainda, quem deseja as sobras quando pode ter algo completo, não fragmentado e inviolável? Creio que ninguém em sã consciência.

Fazia-se necessária uma saída muito bem estudada daquele corpo no qual se estava alojado, pois o proprietário desse pequeno edifício era deveras dependente do outro para permitir tal ousadia. É que ambos se tornaram necessários com o convívio forçoso. Não se sabia mais onde terminava um para dar lugar ao outro, como se quase uma coisa só que se ramificava em várias. Mas ainda assim tão distintos e de necessidades tão divergentes. O corpo dentro do corpo queria experimentar com todos os seus sentidos a vida do lado de fora, pois havia se cansado do que havia visualizado e procurava novas paragens, ainda quase que totalmente inescrutáveis.

Certo dia, os dois corpos estavam polidamente entabulando conversa e o assunto veio à baila. O segundo disse ao primeiro que desejava vida fora da sua origem, explicando-lhe seus pensamentos há muito iniciados, sendo em todo instante rechaçado pelo início de todas as suas coisas. Depois de muita insistência e de se explicar o porquê dessa recusa ainda considerada insensata, o segundo corpo venceu e foi-se, alegre e faceiro viver a plenitude da existência. Ainda durante algum tempo, o corpo original ressentiu-se da sua falta de pulso firme em negar ao seu segundo corpo certas sensações, mas o porvir já escapulava ao seu controle. O que se fez do segundo corpo não saberia relatar, até porque este ainda vive e, como o viver me pressupõe as palavras que me faltam, deixo-vos com a responsabilidade de entabular conclusões satisfatórias daquele cuja sede era muito maior do que o pote de água que lhe foi fornecido.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Volume II

Ae cambada!

Já faz algum tempo, dei que um help pra alguns amigos de uma trupe, que estavam com a idéia de escrever uma peça. O projeto acabou minguando, mas a idéia me subiu a cabeça. Queria fazer inicialmente algo de humor. Um espetáculo de aproximadamente uma hora e pouco, dividido em vários quadros rápidos, com personagens distintos. Mais ou menos como o Terça Insana ou os maravilhosos Parlapatões. Não vou mentir, minhas maiores inspirações vieram desses dois grupos, embora acredite que meu estilo seja bem diferente. Meu raciocínio inteiramente audiovisual, queira ou não, sempre pesa demais nos meus textos.

Outro dia, numa proveitosa noite de insônia, escrevi esse sketch. Na verdade o coloquei como um conto. Assim que encontrar algumas almas caridosas (e loucas) o suficiente pra me darem ouvidos e atenção, converto-o para um texto cênico mesmo.
Ele foge um pouco do padrão de monólogo, normalmente usado, mas enfim... Aqui vai o dito cujo.

VOLUME II

Nessas épocas de agora, onde tudo pode e tudo é permitido, a gente tem mesmo é que ser moderno. Vocês sabem bem como é... Abrir a cabeça pra novas experiências. Tentar uma coisinha diferente aqui e ali. Dar aquela “apimentadinha”.

Pois bem, o marido havia aberto o livro, ainda cheirando a papel novo, que comprara na livraria à tardinha.

- É esse o livro? – Perguntou a esposa, camisa justa, shortinho de malha colado, como esses pijaminhas com complexo de baby doll, que fazem hoje em dia.
- Sim! O volume dois do Kama Sutra! – Respondeu o marido, com orgulho, dando um tapa amigável no livro. – Edição revisada! – Frisou. Ele estava apenas de cuecas.
- Tem certeza que você sabe o que está fazendo? – Indagou a esposa. Ela ainda não estava muito certa sobre aquilo. De todas as coisas para que precisara de um manual de instrução na vida, sexo definitivamente nunca foi uma delas.
- Sim. Sim... – Disse ele com desdenho. - Tive tempo de dar uma folheadinha. Confie em mim. – E começou a folhear, abrindo em uma das páginas. - Essa parece boa! – Exaltou empolgado.
A mulher aproximou-se para ver do que se tratava. – Parece difícil. – Fazia uma careta de reprovação.
- Que nada! Super fácil. – Retrucou ele.
Ainda um pouco insegura a esposa já ia começando a se despir quando o marido a interrompeu. – Nada disso!
- Vai com roupa mesmo?
- É que o livro diz que primeiro temos que atingir um estado de realização cósmica pós-tântrica.
- Meu Deus!
- Isso! Pensa NELE!
- Como vou ter tesão pensando em Deus? Que tipo de pervertida você acha que eu sou? Eu fiz catecismo caralho! Aquele lance da fantasia de padre foi só porque a de cowboy já tinha sido alugada e a de bombeiro não tinha do seu tamanho!
O marido esperneou similar a uma criança pequena, cuja mãe não entende o motivo da pirraça. - Não é pra ter tesão agora! Só pra elevar a mente! – Dizia, enquanto batida com dedo no livro insistentemente. – Aqui diz: “Feche os olhos...”
A contragosto esposa foi fazendo: - Tô fechando...
- “... e limpe tudo que houver de você em você mesma”.
- E como eu faço isso?
- Sei lá, apenas limpe! Aqui diz que você deve negar a si, para igualar-se ao “todo-cósmico”. Faz assim: Imagina uma cachoeira!
E o homem foi narrando lentamente enquanto a esposa mentalizava o mantra. – Isso... Deixe fluir... Pense na cachoeira. Você é a água escorrendo lá de cima. Gota por gota... Esvazie a si mesma.
- Amor... – Interrompeu a esposa.
- Que foi? Tá chegando ao estado de realização cósmico?
- Não... Tô com vontade de fazer xixi! Posso ir ao banheiro?
- Agüenta aí!
- Mas a coisa tá séria aqui! Vou me esvaziar todinha...
- Se segura, porque que você não vai me estragar tudo agora! Foi um perrengue desgraçado pra comprar esse livro! Tu me encheu o saco porque queria fazer essa joça! Agora agüenta!
A mulher parou de reclamar, embora ainda se contorcesse um pouco aflita. – Ai amor, não dá pra pular essa parte do esvaziar e ir logo pra que você preenche? – Riu. – Esvazia, preenche, esvazia, preenche.
- Tá, tá... – Disse o marido meio decepcionado. – Vamos lá. Aqui diz que é só fazer a posição da “garça com cólica em direção ao horizonte que nunca chora”. – E ele foi inspecionando a esposa. – Vai... Isso mesmo... Coloca a mão esquerda no queixo... É, o cotovelo direito um pouco acima da orelha... Equilibre-se só em um pezinho amor, como tá no desenho livro, tá vendo?
De longe, a esposa no máximo parecia uma iracema desenxabida, equilibrando-se num pé só, com o joelho levemente flexionado e os dois braços erguidos de forma bizarra. Um o polegar apontando em direção ao queixo, o outro balançando lentamente como o bater de uma asa.
– Agora é minha vez. – Explicou o homem. – Deixa eu ver... – E agarrou a esposa pela cintura, colocando sua cabeça debaixo do braço direito dela. Então ele ergueu o pé esquerdo, sacudindo-o aleatoriamente e começou a gorgolejar, como um pássaro em acasalamento.Passaram-se alguns momentos.
- Tá sentindo alguma coisa? – Perguntou ele.
- Nadinha... Mas logo, logo o meu eu interior vai escorrer pernas abaixo, amor... Tá séria a coisa aqui!
- Que merda, não? Eu também não tô sentindo nada... – Acho que fizemos algo de errado. Provavelmente era o indicador e não o polegar que você deveria levar ao queixo!
- É sempre assim! A culpa é eternamente da mulher! O homem nunca falha! Vai ver foi esses gritos seus aí, de periquito estrangulado, que zicou com tudo!
- Era de um “flamingo em fúria olhando para o ventre do elefante dormente”!
Ela riu. - É... O elefante realmente dormiu com vontade! Até roncou!
- Não tenho culpa! Você sabe que tenho aquele meu probleminha na garganta.A esposa suspirou e apontou para o livro. – Olha... Porque não começamos com um mais fácil?
O marido, ainda meio frustrado, concordou, enquanto abria outra parte da publicação. – Tá. Tudo bem. Tem outro aqui. Este vai precisar de alguns acessórios.
– Onde você vai enfiar uma galinha preta viva e a vela de sete dias acesa? – Gritou CHOCADA a mulher ao ler a lista.
- Ah... Não, não... Essa é a lista da macumba da tia Irací. Só usei pra marcar a página. – Tranqüilizou o conjugue, amarrotando o papel e jogando-o fora.
A esposa suspirou aliviada.
Ele continuou. - Providenciou o que eu havia pedido hoje à tarde?
- Era pra agora à noite? – A esposa colocou a mão no peito. – Gente, bem que fiquei imaginando pra que você queria que eu achasse um anão vestido de Gengis Khan.
- E conseguiu?
- Não! Só deu pra pegar as três laranjas, o triciclo, o pôster da seleção nacional de 1978 e a goma arábica.
- E o pula-pula?
- O que você quer fazer com um pula-pula? – A esposa mais uma vez se embraveceu.
O marido a indicou o trecho do livro onde explicava detalhadamente o item. Ela analisou a página com uma expressão não muito amigável. - Péra Rubão, vamo com calma, que até eu tenho meus limites! O pula-pula, aí, não! Nem vem!
- O livro diz que a gente, na falta, pode usar um cortador de grama ou um pogoball...
Lembra-se deles? – Comentou o marido displicentemente.
Foi o suficiente para a esposa virar as costas e sair do quarto.
- ‘Péra aí amorzinho! Volta aqui!
- Nem pensar Rubão! Nem pensar!
- Mas depois de todo o trabalho que eu tive? Sabe o quanto foi complicado trazer aquela gangorra que está lá no corredor? E os 3 potes de melaço? O saco de penas? A fantasia de Mickey Mouse? O autógrafo do Biro-Biro!
- Não quero nem saber! Estou indo para o banheiro antes que o meu eu interior molhe todo o carpete!
O marido prosseguiu atrás da esposa, fechando a porta do banheiro em seguida. De dentro, se podia ouvir a voz dos dois:
- Solta seu eu Patrícia!
- Ah! Estou soltando! Estou soltando!
- Meu Deus! Que eu maravilhoso! Deixa fluir!
- Você tá gostando amor?
- Claro! Agora fica quieta e puxa a descarga que eu tô doidão!
E a esposa começou a apertar repetidas vezes à descarga aos gritos de mais e mais do marido.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Super Moderna

“oê oê oê
eu sou mais indie que você
oê oê oêeu sou o king dos blasé
oê oê oê
vamo no James pra fervê
oê oê oê
eu sou mais indie que você
oê oê oê
eu sou o king dos blasé
oê oê oê
o indie diferenteque só dança yeah yeah yeahs”

Bonde das Impostoras, “King dos Blasé”

Esse aqui é referente à um quadro de peça que eu queria escrever. Algo de humor, com várias sketches rápidas.
Cá entre nós, verdade vos digo, é bem fácil e rapidinho escrever esses textos. O segredo, creio, é não pensar demais. Humor deve ser algo rápido e instintivo. Até mesmo uma piada mais trabalhada ou cabeça, deve surgir de modo espontâneo e ser facilmente digerida. Se a pessoa pára pra pensar demais no que foi dito ela não ri, e aí conseguentemente o humor se torna falho em sua missão principal.
Apenas gostaria de esclarecer dois pontos, antes de começarmos o texto.

1 - Não tenho nada contra Curitiba ou quem mora lá. Mas admitamos, é a capital nacional do Indies. E definitivamente sou inimigo natural da cultura Indie. Não que eu tenha problemas com quem gosta de um drama austro-hûngaro obscuro ou uma banda de garagem cujo som é um lexotan auditivo. Afinal se ser chato fosse crime, sogra pegava prisão perpétua. O que eu realmente não gosto nessas culturas indies e similares é o posicionamento pedande de "olha como eu sou intectual e você não" de quem frequenta essas rodas. Uma vez conversei com um universárito que era catedrático em sua área, literatura medieval, mas patinava geral em outros assuntos, até mesmo os triviais.
Atualmente existem diferentes modelos de conhecimento e cultura; e numa era onde a informação está tão acessível a tudo e a todos, por tantas mídias diferentes, a pessoa deve ser valer de algo mais do que um bando de livros e conhecimento específico em determinado departamento para dizer "hei, eu sou foda".

2 - Esse texto não foi propriamente dito, baseado em um único indivíduo. Mas é apenas uma óbvia catarse de anos de experiências ruins, no convívio com intectuais malas - pq há intelectuais legais sim, mas esses raramente dizem que são intelectuais - e o consequente trauma que isto me causou. Admito que certa pessoa me serviu como inspiração principal. Quem me conhece de alguns anos atrás sabe de quem estou falando, "né gentém? Tô bege! Beijos, me liga, que eu vou pra CuritXiba fazer Ciências Sociais"!

PS: Que conste nos autos que também nada tenho contra quem faz Ciências Sociais (embora minha mente altamente capitalista, consumista e direitista me impeça de compreender o que impulsiona um ser em tal direção. Realmente não consigo entender nenhum objetivo de vida que não envolva fama, fortuna ou dominação mundial). : )
Agora vamos ao texto inculto, deste pobre coitado aliterado e massificado pelos movimentos sub-culturais.


SUPER MODERNA

Oi gente! Pra quem não me conhece ainda – porque eu sou suuuper conhecida. – eu vou me apresentar agora. Meu nome é Niké. Não. Não é do tênis. É da deusa. Gente, vocês não sabiam que é o nome de uma deusa grega? – porque não sei se contei pra vocês, mas eu sei tuuudo de cultura grego-romana – Povo inculto, cruzes! Valha-me os deuses do Olimpo! Mas então, me deixa falar! Niké era a deusa grega da vitória. Tipo assim, ela tinha umas asinhas. Suuuper cult!
Então, xá’falá, deusas à parte, minha mãe colocou esse nome em mim, porque tava suuuper apaixonada por um vendedor de tênis. Aí já viu né? Foi Nike pra cá, Nike pra lá - rolou no meio do caminho até um Adidas e uma ou duas soquetes - e 9 meses depois eu tava estreeeiando geeente.Assim, pra resumir, eu sou filha de mãe solteira né? Porque minha mãe era suuuper pra frente, e por isso é que eu suuuper moderna! Ela sempre falava pra mim - eu até hoje guardo isso na memória - “filha, homem é como rúcula”. Ainda não entendi exatamente qual o sentido, mas acho suuuper chique e sempre digo isso pras minhas amigas. Aí assim – assim, já viu que eu falo muito “assim”, né gente? – Mas me deixa explicar o motivo desse meu sotaque meio estranho. Eu sou meio que paulistibana ou então uma curitibista. Porque assim, eu comecei a estudar em São Paulo mesmo, por isso às vezes eu tenho esse jeitão meio assim de falar, mas aí depois eu fui fazer facul em Curitiba. Por isso falo hora meio “assim”, hora meio “assim”. Tão me entendendo?
Sobre Curitiba. Ai gente! Amei! Cidade suuuper dez! Tem uma cena suuuper cult, suuuper indie-underground-alternativa! Mas então, fui pra lá estudar! Né? Não sei se vocês sabem, eu faço Ciências Sociais com especialização em Filosofia. Porque a gente tem 3 grandes correntes de pensamento, né? A de Sócrates, Garrincha e Pelé...Mas assim, é suuuper lindo tudo de tudo. Faculdade lá é outro babado. Só gente moderna, só gente pra frente.
E vocês sabem que eu adoro isso, porque eu sou suuuper moderna. Rola de tudo. Lógico que eu não me envolvo em nada. Porque fui suuuper bem criada pela minha mãe. Assim... Tenho a cabeça aberta, mas sou suuuper careta pra tudo. Suuuper comportada. Tanto que outro dia eu estava numa orgia – um sexo grupal básico de final de semana – e me ofereceram maconha. Lógico que eu neguei né? Eu sou suuuper de família pra fazer essas coisas. Aí eu deixei de lado a erva e voltei à transar com o cavalo.Ah, só pra explicar: lóoogico que não era um cavalo, “cavalo” de “cavalo”, né gentém? Tão malucos é? Eu não ia levar um cavalo pra uma festa no meu apartamento! Nem tem cabimento, né? Era só um pônei! E vocês nem queiram saber o trabalho que já me foi levar esse bicho! Se o síndico já implicou com um pônei, dois babuínos e um tamanduá bandeira, imagina um cavalo! Coisa de louco!
Mas assim a festa rolou suuuper legal, suuuper divertida, suuuper solta! Tem um amigo meu, o Pantera – tipo assim, não posso dizer o porquê ele tem esse apelido, mas envolve zoofilia com um felino de grande porte. - e assim: ele é suuuper bissexual, trissexual, pansexual. Coitado, tesudo de tudo por uma planta! Ele leva esse lance de veteranismo a sério! Viu uma verdinha fazendo fotossíntese pela frente, ele come sem dó e sem preservativo! Deuses do Olimpo! Nem conto o bafão que ele fez com a minha samambaia! Olha... A coitada tava tão lambuzada, que se porra fosse adubo, eu tinha agora um coqueiro no hall de entrada! Tinha xaxim pra todo lado e ele fumando, com aquela cara “foi bom pra você também”?
Aí! Falando assim até parece que eu suuuper festeira. E não é bem assim, né? Festas de lado, eu sou suuuper estudiosa! Afinal tô lá pra estudar né gente? E eu amooo minha facul. Porque lá só tem people suuuper intelectual, suuuper cabeça. A plebe chama a gente de blasé, mas que nada. Somos suuuper tolerantes com a massa ignorante e rústica. Isso é inveja de povinho medíocre.
Porra, que culpa tenho de ser foda? E gentém, eu sou foooda. Com “ph” maiúsculo! Que nem o meu bofe atual: o Thomas. Assim... Ele é suuuper gentil, suuuper foda, suuuper inteligente. Fala Turkomenistão, mandarim, malaio e alemão. Só não fala português. Aí a gente sempre se comunica por gestos, né? O homem ideal que toda mulher suuuper moderna deseja. Porque vocês sabem, homem é como rúcula. Mas ele é um amorzinho. Todo final de semana, quando é liberando da ala psiquiátrica do hospital, vem correndo me ver! Quer dizer, vem andando, porque a coordenação dele não é muito boa, sabe gentém? Excesso de medicação tarja preta. Mas ele é tão lindinho (e viril). Parece um gorila na cama! ...E fora também. Falo pra ele não ficar atirando cocô nas visitas, mas tadinho; é o modo dele expressar seus sentimentos! Sempre tem um que reclama, mas eu falo "Mordeu você? Nãooo!". Ai meus Deuses!
Tô vendo aqui, tô ubber atrasada pra minha aula de Tailandês arcaico (porque vocês sabem, curso de Inglês é suuuper mainstrain, e eu tô fora). Aí gente! Vou indo tá? Amei falar com vocês!
Beijos! Me liga!

(particularmente acho que ficaria muito dez se conseguisse pegar uma atriz responsa pra encenar essa bagaça). Lógico que reconheço minhas limitações, que ainda possuo, como autor.

sábado, 11 de outubro de 2008

Pessoas Problemáticas & Outros Indivíduos Complicados

“Deeply disturb and deeply unhappy,
deeply disturb and deeply unhappy”.

Infected Mushroom, “Deeply disturb”.


“Você precisa escrever sobre pessoas problemáticas. É isso que vende hoje em dia: livros sobre problemas psicológicos, análises de comportamento ou autobiografias” – me aconselhou a editora. Eu ali, sorriso amarelado na cara, tentando manter aquela expressão de paisagem no rosto para esconder meu desapontamento. “Romances, contos, crônicas, enfim... Esse filão não tem uma saída muito boa atualmente.” – prosseguiu gentilmente a senhora (tá, ela não tinha aliança na mão, mas recuso-me a chamar de “senhorita” uma nega com evidentes 40 poucos anos na cabeça). Minha interação com a mulher diminuía a cada segundo. Ela nem sequer o tinha lido meu trabalho e já estava o recusando. Estávamos tão concentrados em nossos próprios esforços, ela de fingir simpatia e interesse, e eu de manter-me inabalável como a foto de um ator em um display de vídeo-locadora, que esquecíamos de dialogar. Permaneci sentado com o meu originalzinho – pobre coitado – na mão, sem saber o que fazer exatamente; torcendo para aquela entrevista constrangedora terminar o mais rápido possível.

“Pessoas problemáticas? Mas que porra essa fulana tem na cabeça?”. Saí de lá indignado e, confesso, só não estava mais fulo porque no fundo achei a coroa gostosa. (com todo respeito à própria em questão). Na frustrante volta pra casa meus pensamentos se dividiam em tentar adivinhar qual tipo de lingerie ela estaria usando, pela marca que a calcinha fazia na saia e que merda queria dizer com “pessoas problemáticas”. Caraca, eu sou escritor e roteirista de histórias infantis, de humor, fantasia, ficção-científica, super-heróis e terror! Que diabos ela queria que fizesse? Um livrinho ilustrado chamado “Meu ursinho bipolar”? Uma ficção intitulada “Os Lexonáutas”? “Se meu lítio falasse”? “O terapeuta assassino”? Pra isso já tem as Fernandas Youngs, Clarahs Averbuks, Marcelos Mirissolas, Gabriel Bás e Fábios Moons da vida...

Se coloquem no meu lugar. Como eu, logo eu, faria um livro sobre problemas psicológicos ou análises de comportamento? Este pretenso escritor que vos fala de longe era a pessoa menos indicada para tal tarefa. O que esperar de um individuo cuja formação cultural básica havia sido fundada sob sólidos alicerces construídos com doses maciças de desenhos animados, livros empoeirados de terror e ficção, filmes de kung-fu e explotation da década de 70, rock pauleira e techno music, seriados japoneses, videogame e histórias em quadrinhos de super-heróis. Logicamente com o tempo fui adicionando vários outros elementos ao meu repertório cultural, mas basicamente ainda sou o mesmo moleque de 13 anos que vibrava com zumbis devorando um bom cérebro e robôs gigantes. Em suma um ex-nerd, que aprendeu a ter (parcialmente) vida social e vai malhar diariamente.

Nunca gostei de ouvir bossa nova ou bandinhas indies. Poemas só se forem coisas funestas a lá Augusto dos Anjos, algumas trovas medievais (preferencialmente de guerra) e outras raras exceções. Mantenho-me longe de filmes suecos, de dramas psicológicos do circuito alternativo búlgaro de cinema e dificilmente me interesso por qualquer tipo de história onde não haja pessoas tentando resolver seus problemas na base da porrada, ninguém tente matar ninguém ou que um dos protagonistas principais seja um monstro ou um ciborgue.

Nem que quisesse poderia fingir ser um pseudo-depressivo com pretensões profundas. Quando EU tive depressão (e acreditem amiguinhos, eu REALMENTE a tive) preferi afogar minhas angústias em biscoitos de chocolate e escrever um livro de RPG para me ocupar os pensamentos. O máximo que consegui no auge dessa terrível fase foi ficar deitado na cama o dia inteiro, sem vontade de fazer merda nenhuma. Não me identifico e nunca me identifiquei com essa cultura prozac/indie. Nunca achei bacana um filme do Andy Kauffman ou da Sophia Coppola, só de ver a sinopse de “Invasões Bárbaras” já me dá sono e até hoje não tive paciência de ler um livro da Clarice Lispector por inteiro. E não me perguntem por que, sempre confundo o nome dela com o da Cecília Meireles, antes que me recorde como realmente se chama a danada. Meu cérebro dá pau às vezes e tenho uma terrível memória em relação a coisas que acho desinteressantes. Mas pelos menos sempre me lembro que começa com “C” e isso já é um grande passo pra mim (não sei o número do meu próprio celular de cabeça).

Se me perguntarem sobre Nietzsche poderei afirmar categoricamente que o acho uma fonte inesgotável de frases de efeito e citações pressão. Mas dificilmente terei tesão ou gabarito para ir além disso. Até porque, fora o feijão com arroz obrigatório da filosofia, li pouquíssimo sobre o assunto (e se naquela época houvesse Wikipédia, talvez nem isso tivesse lido). Considero a ciência filosófica o grande chuchu da humanidade: Tem lá sua serventia, mas é totalmente sem graça pra se comer pura. Em compensação posso discutir durante horas e com paixão porque acho H. P. Lovecraft e seu mestre Willian H. Hodgson muito mais legais que Allan Poe – embora também seja fã de carteirinha do trabalho do Ed.

Nunca sofri as dores do amor romântico, não tomei medicamentos tarja preta, jamais me envolvi em algum mundo obscuro de drogas ou perversões sexuais e definitivamente não acho que algumas dessas questões possam ser resolvidas através da aritmética ou comparando-a com um fliperama. Nunca tive necessidade ou interesse em entender, analisar ou discutir relacionamentos. Se eu sou alienado? Creio que não. Mas sinceramente não será escrevendo livros depressivos ou fazendo filmes malas que resolveremos algum problema. E definitivamente não será esse mané aqui, sozinho, a salvar um mundo que não anda lá com muita vontade de ser salvo.

Talvez o leitor estranhe um pouco minha franqueza, mas sinceramente não é minha intenção posar desse estereótipo pré-fabricado de intelectual engajado em sei-lá-o-que. Certa vez já fiz isso pra impressionar uma acadêmica pela qual estava apaixonado e infelizmente foi um completo desastre. Acabei parecendo mais imbecil do que aparentava no início, levando fama de farsante e o pior... Fiquei sem a mina!

Ah, e antes que algum intelectualóide, acadêmico genérico, sociólogo ou filósofo de plantão venha correndo atrás de mim com tochas e foices, tachando-me de herege inculto: gente, de boa. Todo mundo zen. Vocês podem continuar discutindo se Karl Marx foi ou não fundador do ZZ Top, qual a influência do bigode de Nietzsche em sua obra e tentando descobrir uma utilidade pro Kant e pra água de salsicha; enquanto eu fico vendo Boris Karloff andar trôpego com meio quilo de látex na testa e dois pinos no pescoço. Assim todos ficamos felizes! No fundo qualquer cultura é cultura inútil, ou no mínimo secundária, para quem não a consome, mas de extrema valia para seu público alvo. Então, vamos parar de nos levar tanto a sério. Se alguém nesse mundo fosse dono da verdade, a venderia ao invés de distribuí-la de graça por aí! Bom... Pelo menos eu, como legítimo capitalista, a venderia!

Divagações inúteis à parte, ainda estava pensando no meu problema com as pessoas dilemáticas... Ops, digo, no meu dilema com as pessoas problemáticas. De longe quero me comparar a algum medalhão da literatura – quem sou eu pra isso, uma vez que nem consigo publicar meu livrinho –, mas fiquei imaginando se Machado de Assis tinha lá esses problemas. Imagine só “Dom Casmurro” sendo vetado somente porque Capitu não tomava psicotrópicos ou era Bordeline clinicamente diagnosticada. Se o Machadão fosse um escritor iniciante, hoje em dia pra emplacar com algum editor acho que seria mais ou menos assim que ele teria que escrever:

“DOM CASMURRO, CAPÍTULO XXXII OLHOS DE RESSACA”

Tudo era matéria às depressões de Capitu. Caso houve, porém, no qual não sei se aprendeu ou ensinou, ou se fez ambas as cousas, como eu. É o que contarei no outro Capítulo. Neste direi somente que, passados alguns dias desde a última tentativa de suicídio, fui ver a minha amiga; eram dez horas da manhã. D. Fortunata, que estava se depilando nem esperou que eu lhe perguntasse pela filha.

- Aquela puta vagabunda está na sala vomitando em todo o tapete novamente, disse-me; vá devagarzinho e lhe dê uma porrada. A piranha me passa a noite inteira dando pro primeiro torto que me aparece na frente; e ainda, deslavada, chega cheia de goró na cara.
Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho traiu-me. Este pode ser que não fosse; era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza), comprado a um gigolô italiano, moldura tosca, argolinha de latão, pendente da parede, entre as duas janelas. Se não foi ele, foi o pé. Um ou outro, a verdade é que, apenas entrei na sala, o vômito voou pelos ares, e só lhe ouvi esta pergunta:
- Há alguma cousa, caralho?
- Não há nada, que merda, respondi; vim ver você antes que o Padre Cabral chegue para lhe comer de novo. Aquele velho puto. Como passou a noite?
- Não lembro. Bebi demais outra vez, acho que transei com vários como de costume. Não me recordo da cara de nenhum, mas acordei com a boca toda suja. José Dias ainda não lhe falou quando traz a erva?
- Parece que não.
- Buceta. Mas então quando aquele corno fala?
- Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assunto; não vai logo de pancada, falará assim por alto e por longe, um toque. Tipo uma punhetinha verbal. Depois, entrará em matéria. Quer primeiro ver se o terapeuta lhe passa ou não a nova receita. Os tarjas-pretas que está tomando não fazem mais o efeito desejado.
- Que tem, tem, interrompeu Capitu. E se não fosse preciso alguém para vender já, e de todo, não se lhe falaria. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto; acho que fará tudo, se sentir que você realmente não quer ser garoto de programa, mas poderá alcançar?... Ele é entendido, porém... É um inferno isto! Você teime com ele, Bentinho.
- Teimo - hoje mesmo aquele bucetóide há de falar.
- Você jura?
- Juro. Deixe ver os olhos, Capitu.

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos daquela quenga chapada, filha de uma pistoleira de 24 tetas". Eu não sabia o que significava “pistoleira de 24 tetas”, mas “quenga chapada” sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar, examinar e bulinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a pupila dilatada e a vermelhidão dos olhos eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirar seus seios mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que os olhos entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que... Retórica dos maloqueiros, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de drogadona mesmo. É o que me dá idéia daquela feição nova de farinheira. Traziam não sei que fluido torpe e doentio, uma força que arrastava para dentro, como a uma privada sendo descarregada, nos dias de cólica braba. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, aos peitos, aos peitos e aos peitos, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquela bolinação mental? Só o meu tesão terá marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo os bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou àquele tosco do Dante; mas eu não estou aqui para falar de poetas, caralho. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos peitos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, - para dizer alguma cousa, - que era capaz de os massagear, se quisesse.

- Você?
- Eu mesmo.
- Vai esmagar-me as tetas todas, isso sim.
- Se esmagar, eu assopro depois.
- Vamos ver.
- Tem um creminho aí?

sábado, 23 de agosto de 2008

O livro gigante do Pequeno Principe / Calvin e Haroldo

Foto: Carolina Iskandarian/ G1

Para quem foi na Bienal do Livro em São Paulo encontrou uma cópia do livro "O Pequeno Príncipe" de 2,0 metros de altura para exibição.


Mas não é que dando uma procurada num site de uma livraria dá pra encontrar essa edição a venda por meros R$40.000,00! É, você não leu errado, o negócio custa quarenta mil reais!


Tudo bem você ter mais de uma edição do livro que você gosta. Eu mesmo tinha dois "O Menino Maluquinho" do Ziraldo. Uma em edição "normal" e uma outra comemorativa em formato de bolso. Eu amava essa edição em miniatura do livro. Mas ter uma edição gigante é para pessoas "excêntricas" demais.


O que é que se faz com uma edição de 2,0 metros?


Não dá pra ler na cama, a não ser que você durma em cima do livro e use suas páginas como cobertor. Dar aquela relaxadinha lendo no banheiro nem pensar. Iria ter uma distensão muscular. Nos braços, é claro.


E pra guardar???


Teria que colocar atrás do armário. Até mesmo poderia usar o livro para compartimentar a sala de estar ou fazer mais um ambiente no quarto colocando o livro de pé e abrindo suas páginas.
***
Mudando de assunto, vou aproveitar pra mandar o link de um lugar que encontrei um site com todas as tirinhas do Calvin e Haroldo em inglês.
Essas tirinhas são geniais.
Have fun!


segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Zombies, man. They creep me out.

(sem spoilers)

A Noite dos Mortos Vivos (1990)

A primeira vez em que eu assisti a um filme com mortos-vivos foi, provavelmente, no Cinema em Casa com algum da série "O Retorno dos Mortos Vivos". Essa série de filmes tinha uma pegada mais cômica, onde os mortos saíam esfomeados por ai clamando por "cérebros". Porém nem dei muita atenção a este filme, apesar de ser divertido.

Mas já a segunda vez, meu amigo...

Era uma dessas sessões do Cine Trash, apresentado pelo Zé do Caixão, quando era exibido nas tardes dos dia úteis. O filme começava com um casal de irmãos visitando um cemitério. O irmão fazia gracinhas em cima da irmã, tentando assustá-la. Até que dos funerais que ocorrem ali, os mortos se levantam e atacam os vivos.

O filme em questão era a refilmagem de Tom Savini d´A Noite dos Mortos Vivos (1969). Mas essa versão dos anos 90 me pegou, afinal era o primeiro filme levado a sério do subgênero que eu via. Os mortos apresentavam estados diferentes de putrefação, olhos vazios, roupas rasgadas, nenhuma piada sobre flatulência, etc. O filme mostrava um grupo de pessoas de diferentes origens que se refugiavam numa casa de campo, abrigando-se dos mortos que estavam se alimentando dos vivos.

O tratamento da história era muito realista. Eram pessoas comuns tendo que lidar com uma situação fora de comum.

A Noite dos Mortos Vivos (1990)
O filme me impressionou muito. Ainda demorou um pouco pra descobrir que aquele filme de 1990 era uma refilmagem do filme de George Romero e que haviam mais dois filmes sobre o mesmo universo : " Despertar dos Mortos" (Dawn of The Dead, 1972) e "Dia dos Mortos" (Day of The Dead, 1988). O mais interessante é que todos esses filmes são sobre um universo e não sobre personagens. Ou seja, acompanhamos diferentes momentos e diferentes grupo de pessoas de um mundo onde os mortos voltaram à vida. Isso também significa que nenhum dos personagens está a salvo, então não vai ter aquela desculpa manjada da chegada do herói quando a mocinha está em perigo.

Esses filmes de George Romero se tornaram um tipo de mitologia contemporânea. Cada filme da série, apresenta idéias e personagens que continham muito do tempo em que foram feitos. O filme de 1969 apresentava como protagonistas um homem negro e uma mulher que "lideravam" o grupo preso dentro da casa. Imagine quando o filme foi lançado, nos EUA - um negro e uma mulher se sobressairem dentro de um grupo de pessoa marjoritariamente composto por pessoas brancas. Um ano antes do lançamento, em abril o político negro Martin Luther King Jr. tinha sido assassinado a tiros. Movimentos feministas reinvidicavam seus direitos. Conflitos sociais estavam causando grandes discussões e polêmicas no território norte-americano e Romero não teve como não se influenciar por esses assuntos.

Então no filme temos esse pequeno microcosmo onde não se discutem essas questões diretamente, mas de uma forma a se entender na forma em que os personagens se tratam e agem.

Tudo isso dentro com os personagens presos dentro de uma casinha.

O mais incrível é que eu me identificava com essa situação de clausura. Eu tinha inúmeros pesadelos onde vampiros tentavam entrar na minha casa. Lembram daquela regra que os vampiros não podem entrar na sua casa até que sejam convidados? Tinha uma época que eu morria de medo de convidar uma pessoa pra entrar na minha casa e descobrir depois que se tratava de um vampiro. Então os meus pesadelos tinham a ver com os vampiros tentando entrar dentro da minha casa. Quando vi esse filme com os mortos-vivos tentando invadir uma casa por causa das pessoas vivas que estavam lá eu me identifiquei com o filme, com o medo que essas pessoas estavam passando. Por mais estranha que a situação seja.

Hoje em dia já passei dessa fase dos vampiros, de ter pesadelos com eles.

É só não convidar pessoas pra entrar na sua casa, ter alho sempre, morar em casa com grandes janelas para o sol entrar e crucifixos espalhados pela casa, pois O Senhor é O Meu Pastor e nada me faltará. Nada, inclusive inúmeras armas para neutralizar um vampiro, aquele maldito ser das trevas.

Infelizmente mortos-vivos não têm pontos fracos.

É por isso que eu tenho pesadelos constantes com eles.

domingo, 10 de agosto de 2008

Filosofia Barata


Penso, logo existo. Existo porque sinto e sou. Não sou, estou. Não posso me considerar matéria acabada, pois eu sou a construção em mutação e imperfeita. Remodelada periodicamente através da surpresa de me ser. Ser me esgota as forças. A surpresa perante o espelho que me apresenta matéria inacabada e do que há por trás dessa massa que é o meu corpo e, mesmo tendo se passado tantos anos de convivência mútua, ainda me é desconhecida. Sei que existo, mas não sei existir. Mas existo, e sendo assim eu penso.

Eu prostituo meu pensamento, pois a cada instante em que violo o sagrado direito de somente ser não me contento com tão pouco. Eu vou mais além: eu penso. Sem propriamente querer que o ato me leve a algo mais. Mas ser, ou melhor, estar sendo, é assim mesmo. Assumo o risco e a ignorância de penetrar em território desconhecido, a terra mágica e fértil da imaginação de ser aquele que não sou. Ou ao que não me dei conta de quem também sou.

A cada novo ser revelado a busca não se esgota. Abrem-se assim mais e mais portas, como castigo pela audácia de existir sem se satisfazer com o papel de apenas ser. Juro que no início essa não era a minha intenção. Mas, uma vez sendo, não havia mais como voltar atrás. O segredo é não perceber que se é e ir tateando pelas paredes às cegas em busca de sei lá o que.

Se me perguntarem o que procuro, mudo ficarei. Estou mexendo no obscuro e desconfio que cada vez mais eu quero o inominável. Aliás, não sei se realmente quero. Ser pressupõe de certa forma abandono de consciência e devaneios desvairados. E mudo permaneço, enquanto eu mesmo me pergunto o que busco. Só sei que sou. Sou algo. Que algo também não poderei informar. Eu mesmo não tenho a resposta.

Mas sinto que há certos segredos que nunca me serão revelados. Não estou preparado para o que há de vir depois de faminta a minha curiosidade. Também digo que quando escrevo procuro não ter em mente nada planejado, ser por si só é o suficiente para que as palavras surjam sem autorização prévia. Eu sou enquanto a palavra de mim necessitar. E deixo de me ser para me tornar outro quando me surpreendo sendo. Sem surpresa não há ser. Essa é a raiz de todas as coisas. Eu me torno ser no momento da estupefação.

E cada vez mais estupefato eu abro janelas que dão para novas paisagens. E no fundo de cada paisagem há algo mais esperando eu ser. E que assim seja. Para todo o sempre. Sim.

domingo, 3 de agosto de 2008

Tricky Bizzniss & algumas coisas fofuchas

Tinha colocado há pouco tempo internet em casa (ainda discada, sofrida) e ainda encontrava-me maravilhado com todo aquele mundo digital, lento, porém fascinante. Lembro-me que havia um site chamado Next Level, isso lá por volta de 99... Seu conteúdo era sobre jogos e afins. E em 25kbp/s baixei um videozinho com alguns trechos do Final Fantasy 8 para Playstation. Lógico que, como bom gamemaníaco, senti-me empolgado pelas imagens 3d e o show de explosões e monstros que a tela me mostrava. Mas a musiquinha que haviam selecionado de fundo me fascinou ainda mais. Era um eletrônico contagioso. Não aquele som do Double You e Corona que dominou quase toda a era 90.

Para minha decepção descobri não fazer parte da trilha sonora do jogo e mesmo enviando e-mails para o site e revirando a internet de ponta cabeça não havia descoberto o nome da música. Anos mais tarde, quando via “Lendas Urbanas”, saltei de emoção ao reconhecer a música tocando ao fundo em uma cena, e voraz fui procurar o set list da trilha sonora. Custosamente, descobri a galera do Crystal Method e a vocalista Trixie Reiss com a música “Coming back”. Finalmente achara!



Obviamente não foi apenas a dupla de DJs gringos que me tornou grande fã da música eletrônica. Devo admitir que até mesmo o dance que predominou os 90 e grande parte da adolescência teve certo peso. Talvez não o suficiente pra me ‘apaixonar’ pelo ritmo, mas pra me preparar para o que viria sonoramente nos anos decorrentes. E poxa, como veio coisas boas... Chemical & Dust Brothers, Prodigy, Fatboy Slim, Moby, obviamente Crystal Method, toda aquela leva de eletro-rock - odiada pelos fãs tradicionalistas, mas que sempre achei fantástica -, New Metal, entre outros. Talvez o que sempre tenha me chamado a atenção seja a miscigenação do som e culturas. Se até então dance, pop, rock e hip-hop se mantinham distintos, isolados, cada um em seu universo, de repente eles se encontraram de maneira brutal. Embora isso cause cólicas mentais nos fãns xiitas, acho fantástico todo esse experimentalismo. E vamos admitir, foi graças à cultura eletrônica, remixes e aos nobres DJs que isso foi, e muitas outras novidades atuais, foi possível.

Uma coisa interessante que sempre me disseram sobre o Rock, é que ele jamais se encontrava fora de moda. E por isso era tão bom. Concordo. Black Sabath ou Led Zeppelin continuam tão atuais, quanto nos 70. Porém outro dia escutando novamente um material mais antigo do Chemical Brothers, coisa de 11 ou 12 anos atrás, percebi o mesmo. O som não se desatualizou ou foi datado, como ocorria com a dance musica da década de 90 ou a disco dos 70. E talvez isso seja o que ocorra com música boa, elas nunca saem de moda.

Depois da minha viagem pessoal sobre música, voltemos ao Crystal Method, ou melhor, a ex-vocalista deles Trixie Reiss, do álbum “Vegas” de 1997. Em 2006 ela se juntou com o premiado DJ Ernie Lake, que já concorreu para o Grammy várias vezes e formou o Tricky Bizzniss. O som lembra um pouco o álbum mais recente do igualmente bom GoldFrapp, ainda que seja mais animadão. O site oficial deles é o http://www.trickybizzniss.com/, embora esteja meio desatualizadão (ao menos até o momento em que este post foi concluso).





Trixie tem uma total inaptidão para dançar, não é nenhuma deusa grega e se atrapalha como femme fatale. E talvez isso que a torne sexy. Ela não me parece nenhum estereótipo pré-fabricado de mulher-perfeita ou popstar. Dessas que você teria que se humilhar e implorar por 5 minutos de atenção, além do Lamborguinni na garagem. Essa espontaneidade dá a sensação de que você poderia encontra-la numa balada corriqueira; e que mesmo não sabendo dançar, ainda assim pularia desongançadamente com ela durante horas e se divertiria muito mais do que se tivesse que acompanhar os passos coreografados e complicados de uma Sharika ou Christinna Aguilera (Britney anda meio fora do páreo ultimamente, né?). No final da noite estariam numa mesa falando besteiras e rindo. Trixie Reiss não é o tipo de garota que você se apaixona à primeira vista. Não. Ela é como a própria música eletrônica, que você começa a gostar aos poucos, mas quando percebe já está totalmente envolvido.

E interrompendo o momento fofucho: ALGUÉM PELO AMOR DE DEUS ME PASSA O TELEFONE DAQUELA CHINESINHA LINDA QUE DANÇA DO VÍDEO DE ‘CMON, ‘CMON! (desculpe pelo interlúdio cafajeste, mas mulheres asiáticas são minha kriptonita).

Sem querer me alongar no tópico, mas aproveitando que eu mencionei asiáticas fofuchas e falamos sobre música eletrônica, aqui vai mais umas dicas legais.

Quando tiverem tempo procurem por Clazziquai Project. Quem me indicou foi uma amiga de Taiwan, e assim como ela, me apaixonei pelo som desta banda Sul-Coreana que inclusive consegue fazer Bossa Nova melhor que brasileiros (mas como eu realmente não gosto de MPB, sou meio suspeito pra falar).

Coincidentemente se você for fuçando no youtube nos links do Tricky Bizzniss você só não chegará ao Clazziquai Project, como a Humming Urban Stereo, também das terrinhas da Coréia do Sul. Conhecidos meus de longa data, devo dizer que eles ganham o prêmio de terem dois dos clipes mais fofos e miguxos de toda a história da música e do universo. Se duvidam, se “enfofuchessem” vocês também com os links abaixo.

Hawaiin Couple



Banana Shake



Esse tipo de coisa me faz considerar muito se não era apropriado eu fazer o meu cursinho de DJ, colocar umas roupas style, numa mistura de cluber com um elegante-agressivo a lá Jason Sthatan e formar meu próprio projeto musical... Hum... Talvez comece pelas roupas...

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Sobre "Batman - O Cavaleiro das Trevas" e relembrando "Batman Returns"

O Coringa e sua famigerada faquinha.


Só tendo visto o trailer do filme “Batman – O Cavaleiro das Trevas” já dava pra saber que ia ser, com o perdão da expressão vulgar, foda.

E o filme é tudo o que o trailer promete. Tem bastante ação, tem acontecimentos dramáticos e tem Heath Ledger mostrando o seu lado negro, seu lado “Joker”. O cara está foda!

Todas as cenas em que ele aparece a tensão do filme aumenta em 10 vezes. Você até fica desejando que o personagem do Coringa saia de cena logo, porque senão o bicho vai pegar fodido. Por exemplo, há um momento em que ele invade uma festa com 300 convidados – o lugar está cheio de gente. Daí ele tira saca uma faca, e nem é dessas mega-facas do Rambo, e você tem certeza absoluta de que ele vai massacrar todo mundo usando apenas aquela faca. Como eu disse, é foda.

Por causa dessa tensão, acabei me lembrando de quando eu tinha ido ver o “Batman Returns”(1992) dirigido pelo Tim Burton. Fui ao cinema nessa fatídica férias escolar do ano de 1992 pra ver o filme, um filme baseado num herói muito legal. Apesar da pouca idade, eu tinha gostado do primeiro Batman, mesmo com toda a violência inapropriada para mim e quis ver o segundo, claro.

Na época eu tinha 10 anos e minha tia me levou ao cinema. O filme começa, daí temos a mulher gato (Michelle Pfeiffer) sendo jogada de um prédio. Até aí tudo bem. Então seu corpo é cercado por dezenas de gatinhos que a lambem e ela se levanta extasiada, reanimada por aqueles animaizinhos, até então, inocentes. A cena causou um certo curto-circuito na minha cabeça.

A secretária vira uma mulher em roupa de couro e numa cena ela literalmente desenha um jogo da velha, com suas garras metálicas, na cara de um marginal. Uou! Pra em seguida furar ambos os olhos do coitado! A essa hora, meus dois olhinhos puxados estava esbugalhados! Eu jamais vira tamanha violência “crua” assim. Nem nos filmes do Charles Bronson e derivados.

Minha tia se vira para mim e fala: “Meio violento esse filme, né? Vamos embora?” E eu insisto: “Não, vamos ficar mais um pouco pra ver o que acontece”.

Depois passamos para o outro vilão do filme, o Pingüim, interpretado pelo Danny de Vito, numa excelente atuação, diga-se de passagem. Um vilão bizarríssimo criado desde criança por pingüins. Numa manobra política, um partido de Gotham enxerga nele um candidato em potencial para a cadeira de prefeito da cidade! Utilizam-se da imagem dele de paria da sociedade para tentar ganhar a simpatia de Gotham e de todos os eleitores que devem viver à margem da sociedade.



No primeiro plano a Mulher Gato (Michelle Pfeiffer) e lá atrás o Pinguim (Danny de Vito) em "Batman Returns".

Então tem essa cena do Pingüim na sede do partido em que todos estão comemorando as pesquisas positivas em favor dele. Eis que daí um dos homens que trabalham no partido desdenha do candidato. O Pingüim começa a discutir numa voz branda, ficando cara a cara com o homem e termina abocanhando o nariz do cara! O Pingüim fica atado com esse pobre coitado, o nariz dele esvaindo-se em sangue, sangue esse que enxarcava a boca do vilão.

Neste momento toda a inocência que existia em mim foi por água abaixo. O mundo era sujo sim, sujo e violento. Quem diria, que os políticos que beijavam criancinhas na televisão eram mordedores de narizes?Minha tia se levantou da cadeira e puxou a minha mão, que no momento estava pálida como o meu rosto. Foi uma das imagens mais assustadoras da minha infância.

E de certa forma, as imagens assustadoras voltaram com o Coringa de Ledger.

O Coringa de Ledger é psicótico, maníaco, muito diferente daquele Coringa do Jack Nicholson, meio perigoso, meio brincalhão. O novo Coringa é sem noção, “ele não sabe brincar”.

Bom, falei tudo isso pra discorrer brevemente sobre uma pequena cena do filme. É uma cena minúscula, que não dura nem cinco segundos, mas que tem uma puta força poética no filme, pelo menos eu penso assim. Ela tinha sido exibida no trailer e foi uma das cenas mais marcantes do filme.

É esta cena aí embaixo:



Heath Ledger como o Coringa. Ao fundo o amanhecer na cidade de Gotham.

Sem contar muitos detalhes sobre a trama, mas é um momento em que o Coringa escapa da polícia e se apodera de um carro policial. A cena é marcante porque é o único momento em que o filme dá uma pequena humanizada no personagem. Ela ocorre já na metade final do filme e até esse momento vimos o Coringa botar o terror na cidade. Bom, depois desse momento também vemos o Coringa botar o terror na cidade, mas este é um instante em que toda a loucura e violência do personagem ficam de lado.

E nem dura cinco segundos. Mas é uma imagem extremamente bonita – ainda que ele seja um vilão que não hesita em passar a faca nos que cruzam o seu caminho, ele ainda aproveita desse momento de liberdade com um gesto simples, sentir o vento bater na cara, balançando os cabelos.

Ele não sai por ai dizendo “Rá! Estou livre, quero beber e dormir com umas mulheres”.

É o Coringa aproveitando um momento fugaz. De certa forma a imagem também ganha mais significados com a morte do ator. Ainda mais que seja o filme tem essa interpretação fodida do cara. E uma das últimas.


***


PS: um dia o Tim Burton ainda ganha um post só sobre ele.